"SHIMANAMI TASOGARE": UM ABRAÇO A COMUNIDADE LGBTQIA+

Na cidade de Onomichi, no topo de uma colina íngreme, fica um salão aberto a todos. Tasuku Kaname é um garoto passando por uma situação difícil depois de ter sido "tirado do armário" por seus colegas. Ele chega ao topo dessa colina com a intenção de desistir de tudo, mas é impedido por uma misteriosa figura que parece voar por ali. Essa pessoa é a "Someone-san", que escuta sobre os problemas de Tasuku e o acolhe nesse lugar, aonde ele conhece várias outras pessoas que o frequentam.


Essa é a sinopse de "Shimanami Tasogare", também conhecido pelo nome em inglês "Our Dreams at Dusk". Mas, antes de falarmos sobre esse mangá, vamos falar um pouco sobre a pessoa por trás dessa grande obra.

 








Título: Shimanami Tasogare

Kanji: しまなみ誰そ彼

Inglês: Our Dreams at Dusk

Tipo: Mangá

Volumes: 4

Status: Finalizado

Publicação: 6 de Mar/15 a 23 de Mai/18

Gênero: Drama, Slice of Life

Serialização: HiBaNa

Autor(a): Yuhki Kamatani

Ilustrador(a): Yuhki Kamatani

 

Yuhki Kamatani nasceu em 22 de Junho de 1983, em Hiroshima. Yuhki é conhecide também por um de seus primeiros mangás de sucesso "Nabari no Ou", que foi inspirado pelo seu grande amor por "Naruto", um de seus mangás favoritos. Yuhki também é assumide x-gender (não-binárie) e assexual. Isso é importante, pois tem muita influência em seu trabalho, já que elu se inspira diretamente em suas próprias vivências ao criar seus mangás.


Em uma entrevista de 2018, Yuhri falou sobre as dificuldades que passou na adolescência por ser uma minoria sexual e de gênero. Essa experiência foi essencial na criação de Shimanami Tasogare, aonde Yuki explora, além de sexualidade, também a transsexualidade em mais de um personagem.


É possível até mesmo enxergar na personagem Someone-san uma representação de Yuhki na história, já que Someone-san também é assexual e fala diversas vezes que não tem um apego tão grande a sua identidade de gênero. Poderíamos até mesmo levantar o debate sobre Someone-san também ser x-gender. Seu nome, numa tradução livre, seria "Alguém-san". Ou seja, ela é apenas alguém, livre de definições. Vamos ver como ficará a tradução oficial para o português do nome dela.


Deixo aqui um convite para vocês lerem um post que fiz no Instagram sobre a Someone-san e Assexualidade.


"Se você acha que eu sou um homem, então sou um homem. Se você acha que eu sou uma mulher, então sou uma mulher. Se você me dissesse que eu não sou nenhum dos dois, então acho que eu seria nenhum dos dois."

Agora sobre o mangá. Como eu poderia definir "Shimanami Tasogare"? A primeira palavra na qual eu penso é “acolhimento”. É o que eu senti quando li o mangá pela primeira vez e o que sinto todas as vezes que releio-o. Esse mangá é como um abraço a todas as pessoas da comunidade LGBTQIA+ e faz um ótimo trabalho ao mostrar a história do protagonista, que evolui de uma pessoa sozinha e com medo para uma pessoa mais forte, corajosa, e, principalmente, com orgulho de ser quem é.


Muitas histórias cometem o erro de mostrar um protagonista LGBT que vive totalmente isolado das outras pessoas LGBTs. Tá, isso pode acontecer, mas, na maioria das vezes, não é bem assim. Pessoas LGBTs tendem a se encontrar, procurar por uma identificação com outras pessoas da comunidade. E aqui temos, literalmente, o acolhimento desse personagem que passa a fazer parte de uma grande comunidade, quase uma família.


Apesar de cada um ter uma identidade diferente, todos compartilham suas dores e dificuldades. Todos se apoiam e compartilham de suas experiências. Afinal, aqui temos personagens LGBTs de várias gerações e de diferentes idades, o que deixa a representatividade retratada ainda mais rica.

"Casamento. Um dia, né? Nós vamos nos casar um dia." "Mas quando chegará esse dia?"

Tasuku começa o mangá pensando em tirar a própria vida, algo que, infelizmente, muitas pessoas LGBTs já pensaram em fazer. Ele é um garoto que vive excluído e com medo depois que sua sexualidade é escancarada a todos de sua sala de aula. Mas, logo ao conhecer, Someone-san, Tasuku percebe que não está sozinho. Nessa comunidade, Tasuku encontra pessoas como ele. O mangá não economiza na representatividade. Aqui temos um grupo de pessoas extremamente diversos. Temos, além do protagonista que é um menino gay, um homem idoso gay, um casal lésbico, um pré-adolescente descobrindo sua própria identidade de gênero, uma mulher assexual, um homem trans, e por aí vai.


Ou seja, Yuhki não parou apenas na representação de um personagem gay. Apesar dele ser o protagonista, há um aprofundamento nos outros personagens, levantando questões pertinentes e realmente importantes para a comunidade LGBT no Japão. A representação de um personagem mais velho tendo uma relação de anos com outro homem, uma personagem assexual, o que é raramente visto em qualquer mídia, o desenvolvimento do casal lésbico e suas dificuldades com a aceitação da família. Cada um tem seu espaço e sinto que cada personagem ali foi tratado com muito carinho por Yuhki. É impossível não se apaixonar e importar-se com todos ali.



Ao ler, tudo que mais desejei foi que todos os personagens tivessem seu final feliz. Seja esse final feliz com alguém ou sozinho. Já que, além de mostrar relações românticas e sexuais, Shimanami Tasogare também mostra, através de Someone-san, que está tudo bem você não querer ter uma relação sexual e/ou romântica com outras pessoas. E não tem nada de errado em ser assim.


No fim, tudo é muito bem desenvolvido e amarrado por Yuhki, que cria realmente uma comunidade de personagens que passa a conviver quase que diariamente, apoiando-se, protegendo-se. E isso é algo importantíssimo de ser visto em histórias assim. Afinal, apesar das dificuldades, a união é que faz a diferença.

Outro ponto forte do mangá é, sem dúvida, a arte. As ilustrações de Yuhki Kamatani são de encher os olhos. O uso de metáfora visuais é constante durante a história, ou seja, o uso de imagens aparentemente abstratas para refletir os sentimentos dos personagens, como essa imagem ao lado, mostrando os sentimentos de Tasuku explodindo de dentro dele. Essa é, aliás, minha página favorita de todo o mangá. Mas isso daria todo um novo post, falando sobre as influências de Yuhki, como, por exemplo, Moto Hagio. Então, vou deixar aqui um vídeo, com legendas em português, que faz uma análise magnífica sobre a arte de Shimamani Tasogare: Our dreams at dusk - The Use of Visual Metaphors.


Encerrando, é importantíssimo o espaço que o BL tem ganhado no Brasil e, esperamos que, consequentemente, o Yuri, mas ainda sentimos uma falta de representatividade de outras letras da comunidade LGTBQIA+. Somos pessoas muito diversas e isso está se refletindo também nos mangás. "Shimanami Tasogare" é, então, um grande título e eu fico incrivelmente feliz de ver ele ser finalmente publicado no Brasil. Eu diria que é um mangá essencial na coleção de qualquer um, não só da de pessoas LGBTQIA+.

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