SOBRE A WEBINAR "BOYS' LOVE: A HISTÓRIA E TRANSFORMAÇÃO DO BL NA ÁSIA"

Nessa sexta-feira (12) aconteceu mais um episódio da série sobre cultura pop feminina japonesa organizada pela The Japan Foundation, New York. Nos episódios anteriores foram abordados os temas "Mangá Shoujo" e "Takarazuka Revue". Nesse episódio, 4 especialistas discutiram sobre Boys’ Love e suas diversas mídias pela Ásia.



O seminário/palestra durou cerca de duas horas e meia e contou com participação de quatro especialistas, Dr. Akiko Mizoguchi, Dr. Hyojin Kim, Dr. Kristine Michelle Santos e Dr. Thomas Baudinette, além uma mediadora da The Japan Foundation, New York. Antes da sessão de perguntas e respostas ao vivo, quatro apresentações pré-gravadas foram exibidas.


A primeira a falar foi Dr. Akiko Mizoguchi, ela se concentrou na origem do Boys’ Love no Japão, identificando a fundadora do gênero como Mari Mori, escritora da novel "Lovers’ Woods" de 1961.



Algumas obras shoujo dos anos 70/80 também foram citadas como percursoras do gênero Boys’ Love atual, entre elas "Tribe of Poe", de Moto Hagio. Dr. Akiko Mizoguchi citou a importância que foi crescer lendo essas obras, que permitiram que ela se conhecesse de verdade e se identificasse como lésbica.



Após essa explicação Mizoguchi falou sobre a evolução das representações no Boys’ Love: nos anos 90 as relações seme-uke seguiam um padrão heteronormativo restrito, e ao longo dos anos 2000 foram evoluindo para representações mais realísticas, onde as personalidades dos personagens gays eram trabalhadas e aprofundadas ao longo da narrativa.


Como exemplo foi usado "Doukyuusei", de Asumiko Nakamura, onde os protagonistas puderam se reconhecer como gays a partir dessa interação. Também foi abordado o tema de Ativismo x Diversão. Onde mesmo que obras tenham potenciais de ativismo, não significa que serão consumidas daquela forma.



A segunda palestrante foi Dr. Hyojin Kim que contextualizou o movimento anti-fujoshi da Coréia do Sul, o "Leaving BL".



O movimento tem três argumentos centrais: BL é homofóbico e contra homens gays, BL apenas reproduz a desigualdade entre homens e mulheres da vida real e BL exclui mulheres.


Ela ainda aprofundou algumas justificativas que esses movimentos usam como o fato de "Boys’ Love forçar mulheres a idealizarem homens gays" e a "ignorar a realidade e de recriarem relações heteronormativas", além de outros mais extremos que chegam a apontar o BL como algo que "encoraja mulheres a negarem seus próprios corpos", por supostamente não ter representatividade feminina.


Dr. Hyojin Kim rebateu essas críticas mostrando como elas invalidam a identidade dos artistas por trás das obras e seus trabalhos artísticos em si que deixam de ser considerados fantasia, além de anular o vasto e diversificado público do Boys’ Love.


Além da discussão, Kim contou resumidamente como o BL surgiu na Coréia do Sul e citou obras recentes como "Painter of the Night" de Byeonduck e "Semantic Error" de J. Soori.



A terceira parte da live manteve o foco nas Filipinas, com a Dra. Kristine Michelle Santos, PhD da universidade Ateneo de Manila. Em sua palestra, Santos focou nos espaços seguros que o BL trás para a comunidade no país. Ela então apresentou primeiro elementos históricos do BL nas Filipinas, que ganhou total influência de obras japonesas primeiro em círculos universitários, para só então crescer e expandir online nos anos 2000. Grande popularidade do BL nas Filipinas se deu, não só por causa de animes e mangás, mas também por fanfics e K-Pop nos anos 2010, e influência de dramas Tailandeses em 2014.



De acordo com a autora, o mercado BL filipino vem expandindo aos poucos com publicações comerciais (Pinoy manga), Web Dramas próprios (Pinoy BL) e trabalhos autorais de fãs (fan work). Plataformas online, como Ao3 (fanfiction), Tapas e Pen Lab (plataforma filipina para comics), e redes sociais têm sido as principais fontes da disseminação do BL pelo país, pois causam um senso de comunidade e refúgio. Sendo assim, os eventos presenciais usam do mesmo propósito.



A autora reforça o primeiro evento local feito em 2004 "Lights Out" e 2012 com o surgimento da "BLush Convention", evento filipino global. A mesma afirma que eventos BL garantem uma zona segura para os fãs e que os organizadores de eventos tem o propósito de assegurar um espaço livre e sem medo para se consumir BL. Outros fatos são que além de eventos estimularem diferentes expressões queer, é negociado a religião. Como o país é conservador, nas Filipinas o BL é encorajado a ser mais "leve" para que a mídia continue a ser publicada no país. Materiais de cunho sexual também são escritos e serializados, mas sofrem algumas censuras. A autora encerra então sua palestra afirmando que sempre haverá dificuldades para criação desses espaços seguros, mas que nunca será impossível.



Dr. Thomas Baudinette falou sobre o surgimento do BL na Tailândia, inspirado, claro, pelas obras japonesas. O BL se tornou uma subcultura na Tailândia desde o final dos anos 80 e início dos anos 90. Jovens mulheres, e também pessoas da comunidade LGBTQIA+, principalmente homens homossexuais, que normalmente consumiam obras traduzidas do japonês.


Já nos anos 2000 começaram a ser produzidas obras tailandesas, principalmente na forma de novels online que, posteriormente, foram lançadas fisicamente. Também surgiram quadrinhos. Já a partir de 2014 começaram a ser produzidos os dramas BL para a TV. O interessante é que essas obras são chamas de "Y" de "Yaoi", um termo que já caiu em desuso, mas é ainda muito utilizado na Tailândia.



As novels BL, por exemplo, são chamadas de "Y Novels" e são muito populares. Geralmente escritas por mulheres heterossexuais/ cisgênero e por homens homossexuais. O surgimento dessas novels foi inspirado na popularidade dos mangás e animes BL na Tailândia. As emissoras de TV, procurando por novas formas de mídia e histórias para seus dramas, para competir com os K-Dramas (dramas coreanos), voltaram-se para essas novels BL.



Assim, começou a explosão de séries BL tailandesas. E essas séries são produzidas por várias grandes emissoras de TV até hoje. De 2014 a 2021, em sua pesquisa, Thomas estudou mais de 100 dramas BLs que foram produzidos. E em 2022, o número continua aumentando, com ainda mais dramas sendo produzidos, o que só mostra o quanto essas produções se popularizaram pela Tailândia. Mas esses dramas não ficaram populares só no país, espalhando-se pela Ásia, principalmente na China, Filipinas e até mesmo Japão.



A partir dos BLs, a mídia tailandesa usa desses dramas para promover seus artistas. Principalmente a produtora GMM Grammy, que produz shows, filmes, séries, músicas e é uma das maiores produtoras desse conteúdo, possuindo uns 70% do mercado de BL. Eles usam essas séries para promover suas celebridades de uma forma inovadora, distanciando-se dos animes e mangás do Japão.



Outra coisa comum na GMM são os ships (de "shipping") que são duplas de atores que atuam juntas nessas séries, o que ajuda a promovê-los. Thomas fala que esses artistas tiveram inspiração nos artistas de K-Pop e que eles poderiam ser chamados de "Queer" idols. Queer no sentido de que esses artistas desafiam o heteronormativo através de performances homoeróticas, ou seja, eles desafiam o que seria dito "normal". Trazendo, também, mesmo que de forma performática, uma visibilidade para minorias sexuais.


Você pode assistir a live completa, aqui:



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